Encontros e desencontros (5)
Luis Fernando Verissimo
Einstein morreu e, assim que chegou ao céu, Deus mandou chamá-lo.
- Einstein! - exclamou Deus, quando o viu.
- Todo-Poderoso! - exclamou Einstein, já que estavam usando sobrenomes; e continuou: - Você está muito bem para uma projeção antropomórfica do monoteísmo judaico-cristão.
- Obrigado. Você também está com ótimo aspecto.
- Para um morto, você quer dizer.
- Eu tinha muita curiosidade em conhecê-lo - diz Deus.
- É mesmo?
- Juro por Mim. Há anos que espero esta chance.
- Puxa...
- Não é confete, não. É que tem uma coisa que Eu queria lhe perguntar...
- Pergunte.
- Tudo que você descobriu foi por estudo e observação, certo?
- Bem...
- Quer dizer, foi preciso que Eu criasse um Copérnico, depois um Newton, etc., para que houvesse um Einstein. Tudo numa progressão natural.
- Claro.
- E você chegou às suas conclusões estudando o que os outros tinham descoberto e fazendo as suas próprias observações de fenómenos naturais. Desvendando os meus enigmas.
- Aliás, parabéns, hem? Não foi fácil. Tive que suar o cardigan.
- Obrigado. A gente faz o que pode. Mas a teoria geral da relatividade...
- Sim?
- Você tirou do nada.
- Bem, eu...
- Não me venha com modéstia - interrompeu Deus. - Você já está no céu, não precisa mais fingir. Você não chegou à teoria geral da relatividade por observação e dedução. Você a bolou. Foi uma sacada, é ou não é?
- É.
- Maldição! - gritou Deus.
- O que é isso, Todo-Poderoso?
- Não se escapa da metafísica. Sempre se chega a um ponto em que não há outra explicação. Eu não aguento isso!
- Mas...
- Eu não aguento a metafísica!
Einstein tentou acalmar Deus.
- A minha teoria ainda não está cem por cento provada.
- Mas ela está certa. Eu sei. Fui Eu que criei tudo isto.
- Pois então? Você fez muito mais do que eu.
- Não tente me consolar, Einstein.
- Você também criou do nada.
- Eu sei! Você não entendeu? Eu sou Deus. Eu sou a minha própria explicação. Mas você não tem desculpa. Com você foi metafísica mesmo.
- Desculpe, eu...
- Tudo bem, tudo bem. Pode ir.
- Tem certeza que não quer que eu...
- Não. Pode ir. Eu me recupero. Vai, vai.
Quando Einstein saiu, viu que Deus se dirigia ao armário de bebidas.
ABISMO
Da série "Poesia numa hora destas?!"
Me disseram "cuidado". Que não viesse pro seu lado. Que "essa mulher é um abismo". Mas quando eu cismo, eu cismo. E aqui você me tem. E até agora, tudo beeeeeeeeeeeeeem!
Domingo, 18 de março de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.